Friday, February 17, 2006

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Thursday, October 28, 2004

A Febre do Xadrez (II)

[transmitido na RiIST em 28.10.2004. Download disponível AQUI]

Esta emissão é dedicada à cobertura em directo da segunda parte do jogo de xadrez entre Andrei «GROZNI» Martinovitch, o "Tigre dos Tabuleiros" e Ricardo «O TUGA» Reis, o "Génio do Gambito" [Ver post anterior].

Leitor/Ouvinte amigo, vá buscar outra vez o tabuleiro e os headphones e faça-nos companhia uma vez mais! Se já se curou da gripe anterior, não faça caso: engripemo-nos de novo e gozemos mais uma grande febre do xadrez!

4.11.2004

Brancas: Ricardo «O Tuga» Reis
Negras: Andrei «Grozni» Martinovic

[Continuação da semana anterior]



15. ..., exf5 16. Cg3, fxe4 17. fxe4



La Nevada, Gil Evans


17. ..., g6?? 18. Txf7 [«Acção nos balneários: onde está o rapaz da água?»]



Juicy Fruit, Coleman Hawkins


18. ..., Bd6 19. Taf1, Thf8 20. Bc4, Txf7 21. Txf7 [«Horror! É a luta livre de mastodontes fora do tabuleiro!»], Tf8 22. Be6+, Rb8 23. Td7, Bc7 24. Ce2, g5 25. c3, ...

crr... crr...
CRRR... CRRR...
CRRRZZZZ!!! CRRRZZZZ!!! CRRRZZZZ!!!
BZZZZZ!!! BZZZZZPPP!!! CRRRRR-R-R-R-R-R-R-R-R-R-R!!!

«Mas... O que é isto? Que ruído é este? Há interferência no linha! É um ataque extra-terrestre...»

Empate forçado.

0,5 - 0,5

A Febre do Xadrez (I)

[transmitido na RiIST em 28.10.2004. Download disponível AQUI]

Esta emissão é dedicada à cobertura em directo do jogo de xadrez entre:

Andrei «GROZNI» Martinovitch, o "Tigre dos Tabuleiros"

e

Ricardo «O TUGA» Reis, o "Génio do Gambito".


Os comentários estão a cargo de A. e R., com Ric. a fazer a reportagem no terreno de jogo e Alb. a acompanhar no estúdio, intercalando com música apropriada as jogadas mais emocionantes.

Por comodidade (nossa), omite-se a transcrição dos comentários, das entrevistas com as peças, etc, etc, que poderão ser ouvidos na íntegra aqui. Em vez disso, disponibilizamos por escrito os lances do jogo intercalados, quando oportuno, por imagens do tabuleiro e breves notas.

Leitor/Ouvinte amigo, vá buscar o tabuleiro e os headphones e faça-nos companhia! Engripemo-nos pois juntos e gozemos a grande febre do xadrez!

Prologue/Anvil of Crom, Basil Poledouris (O.S.T. Conan o bárbaro)


28.10.2004

Brancas: Ricardo Reis
Negras: Andrei Martinovic

Abertura siciliana

1. e4, c5 2. Bc4



Juste pour eux seuls ,Art Blakey


2. ..., Cc6 3. Cc3, e6 4. d3, Cf6 5. Bg5, h6 6. Bxf6 [«O cavalo vai para o matadouro!»], Dxf6 [«É o escândalo na corte: a dama come o bispo!»] 7. Cf3



Toujours Moi (Always Me) , Dr. Samuel J. Hoffman


7. ..., Cd4 [«Jogo interrompido pela invasão de uma bela letã»] 8. 0-0, Cxf3+ 9. Dxf3 [«É a zoofilia no tabuleiro: a dama come o cavalo!»], Dxf3 [«A dama negra come a dama branca!»] 10. gxf3 [«O peão come a rainha!»], b6 11. f4, Bb7 12. f5



M-abuse, Max Nagl


12. ..., 0-0-0 13. f3



Boris Vian, Java des bombes atomiques


13. ..., d5 14. Bb5, d4 15. Ce2

Partida suspensa.



The Quiet Surf, John Zorn

Friday, October 22, 2004

Alberto Freitas e a princesa Jadranka

[transmitido na RiIST em 21.10.2004. Download disponível AQUI]

Alberto Freitas exportava cortiça. Os compradores, na maioria servo-croatas, pagavam-lhe em vales postais que todos os meses trocava por notas de euro. Mas o que ninguém sabia é que...

Funcionário dos Correios - Senha vinte e sete!
AF - Bom dia. Venho expedir esta encomenda e receber o pagamento do mês passado.
FC - Nome?
AF - Alberto Manuel dos Santos Freitas.
FC - Um momento. (Pausa) A encomenda pode expedir; quanto ao pagamento o remetente diz que lamenta mas acabaram-se-lhe os vales postais.
AF - Como?
FC - ... Diz que só pode pagar em princesas.
(Pausa)
AF - Quantas princesas são necessárias para perfazer...
FC - As contas dão um pouco mais que... novecentas e vinte e sete, mas a este valor está sujeito a taxa postal. De qualquer modo, isso não importa, porque a lei em Portugal, na Sérvia, na Croácia e em todos os países atravessados pela encomenda proíbe a poligamia. Resta-lhe portanto... uma princesa, duzentas caricas e cinco abre-latas.
AF - Mas isso é um roubo!
FC - É casar ou largar. Mas aconselho-o a casar. Acabo de abri-la para verificação postal e digo-lhe que não é coisa que se deite fora.
AF - E não me podem mandar outra vez para trás a cortiça?
FC - Seria um processo complicado. Não aconselho. Para dizer a verdade, causar-me-ia um grande transtorno. Além disso teria que abdicar do trono de Patavina.
AF - (Pausa) E se aceitar, terei um título?
FC - Dom Alberto Freitas, príncipe de Patavina e das comunidades patavíneas.
AF - Bem, fico com ela.
FC - O título ser-lhe-á atribuído daqui a dez dias úteis, logo após a cerimónia do matrimónio. Dom Alberto Freitas, apresento-lhe a princesa de Patavina, a infanta Jadranka Augustina Augustinovic; Jadranka, apresento-te o Alberto Freitas, corticeiro de Leixões. Uma muito boa tarde e espero que sejam muito felizes. Senha vinte e oito!

_. , [The User], symphony II for dot matrix printers

Noutro canto do mundo, um perigoso candidato a ditador, Igor Ivanovic, estava sentado na sua poltrona a ler o mapa das fases da Lua no Almanaque Borda d'Água. Nisto, é interrompido por um dos seus fiéis criados, Jarbas Pancic ao-seu-dispor, que entra na sala preparando-se para servir o jantar.

II - Jarbas!! Que fazes?
JP - Sirvo o jantar, senhor.
II - Basta! Mil vezes basta! Essa tua entrada inesperada irritou-me. Sou um ditador sanguinário, e estou irritado. Agora vou matar-te, mas preciso de um motivo mais concreto.
JP - O jantar está a arrefecer, senhor.
II - Que interessa isso, pobre idiota? Não acabo de dizer que te vou matar?
JP - Tentava apenas providenciar um motivo, senhor. (pausa) Para além disso, permita-me que acrescente que o arroz está um pouco azedo. Pelo menos foi o que disse o novo provador quando lhe pôs o dente, antes de morrer envenenado como os outros oito antes dele. Esta minha pequena bisnaga de arsénico faz milagres, hein? Vejamos, que mais... Ah! Além de conspirar contra si, ando também a comer a sua mulher. Que aliás, também conspira...
II - (interrompendo-o) Verme incompetente! (dispara) Estou farto que me tentem matar! Corja de traidores! Basta! Desisto de ser candidato a ditador! A partir de hoje, eu, Igor Ivanovic, vou ser ditador à força!

sound of a US Air Force atom bom droped from aircraft

Em Celorico de Basto, Alberto Freitas faz os últimos preparativos para o seu casamento com a princesa de Patavina, Jadranka Augustinovic. Com o tempo, o amor floresceu, de tal sorte que em todo o lado os passarinhos cantavam e as flores desabrochavam. Em Celorico de Basto, os arco-íris multiplicavam-se. Por entre promessas de amor eterno, Alberto Freitas proferia outras de carácter interno, prontamente rebatidas pela casta princesa Jadranka Augustinovic, que conforme tradições milenares de Patavina, procurava conservar a sua pureza até ao momento em que o casamento se consumasse. Os dois contavam com ansiedade os dias que faltam para a boda. Três, dois, um... Zero.

Siki, siki baba, Kocani Orkestar, Alone At My Wedding

Perante o olhar feliz dos convidados e coroada pelos instrumentos de sopro dos músicos que faziam a festa, tudo isto com um belo pôr-do-sol no horizonte, Jadranka Augustinovic inclinava-se para beijar Alberto Freitas pela primeira vez, no instante exacto em que o primeiro homem-bomba rebentou. O segundo e o terceiro não tardaram. Os pais, avós, irmãos, tios,
tios-avós e primos de Jadranka Augustinovic entreolharam-se, à vez: era claro, o ataque tinha a assinatura de Igor Ivanovic!, e assim o confirmou o quarto homem-bomba antes de explodir. Alguns convidados tentavam dissuadir o quinto homem-bomba de rebentar, e faziam-no com tanta insistência que este por fim arrependeu-se, mas explicou, desolado, que o mecanismo já tinha sido accionado e, nisto, explodiu. Depois, muitos mais homens-bomba explodiram, uns de raiva, outros de emoção. Com tanta excitação, ninguém reparou que o sol já se tinha posto; tinham surgido entretanto algumas nuvens ameaçadoras; temia-se a trovoada e, pior!, a chuva, essa instância temível capaz até de estragar casamentos. Foi neste cenário que surgiu, magnânimo, no topo de uma colina, a figura vampiresca de Igor Ivanovic, agarrando com ambos os braços a frágil princesa Jadranka Augustinovic, e se dirigiu aos presentes:

II - Eu, Igor Ivanovic, reivindico este ataque! Patavina será minha! Vou levar comigo a princesa Jadranka Augustinovic e marchar sobre Patavina!

Je t'aime, Ludwig von 88, Houlala 2 la mission

Alberto Freitas estava desolado. O prejuízo era enorme, não só pela cortiça mas também porque sentia saudades da princesa Jadranka Augustinovic. Os músicos ciganos tocavam a marcha fúnebre com os seus acordeões e instrumentos de sopro e os convidados varriam os destroços dos homens-bomba. Dirigiu-se à mãe de Jadranka com ar resoluto:

AF - Não se preocupe! Hei-de recuperar a sua filha e salvar Patavina deste ditador sanguinário!
MJ - Ah, está bem. Seria simpático da sua parte.
AF - E depois restituirei a monarquia em Patavina!
MJ - Faça o que lhe apetecer.
AF - Não chore mais! Prometo trazer-lhe a sua filha sã e salva antes ainda do sol nascer, custe o que custar! A boda será retomada como se nada tivesse acontecido!
MJ - Estou-me nas tintas. Gosto do clima de Celorico de Basto. Acho que me vou instalar por aqui.

O pai de Jadranka aproximou-se:
PJ - É-me indiferente que ela se case consigo ou com aquele bandido do Igor Ivanovic. Aliás, para dizer a verdade, acho que ela o prefere a ele.
AF - Mas como!? Se ele acaba de raptar Jadranka contra a sua vontade...
PJ - Oh, oh, oh (gargalhada). Meu rapaz, não sejas ingénuo. Todas as princesas têm os seus caprichos.

Duetto - "Comare Santa", Pietro Mascagni, Cavalleria Rusticana

Alberto Freitas percebia agora que não se tratava de um rapto, mas de uma fuga. Urgia vingar-se! Arrancar a princesa Jadranka dos braços de Igor era agora, mais que uma questão de cortiça, uma questão de honra! E não havia tempo a perder! Por isso, caminhava a passos largos no seu encalço, até que avistou um vendedor de melões à beira da estrada.

AF - Amigo! Preciso de uma informação!
VM (muito lentamente) - Quer um melão fresquinho?
AF - Não, não, uma informação! Por acaso não viu passar um perigoso ditador com uma bela princesa?
VM - Só digo se me comprar um melão fresquinho.
AF - Sim, sim, eu compro. Para onde é que eles foram?
VM - Duas perguntas, dois melões.
AF (irritado) - Está bem! Eu compro os seus melões todos! Agora fale!
VM - Só depois de pagar. E não aceito princesas, que já caí uma vez nesse conto do vigário.
AF - Tome lá! Isto deve chegar!
VM - (pausa) Isto? Vale bem mais que os melões, mas... que posso fazer eu com isto?
AF - Isso é consigo. Desenrasque-se! Onde está o ditador Igor e a princesa Jadranka?
VM - Ah, sim. Passaram por aqui há pouco, levaram os meus dois melhores melões. É muito bem apetrechada, essa... princesa. Creio que já nos tínhamos cruzado há uns dias... Não é nada tímida, ela. (disfarçando o riso)
AF - Isso não interessa. Para onde é que eles foram?
VM - Para a estação de comboios. Ouvi rumores que diziam que iam para... Kazan.
AF - A Kazan?
VM, AF - A Kazan!!! A Kazan!!!

Dance of the Oprichniks, Serge Prokofiev, Ivan the Terrible

O último comboio para Kazan tinha saído há cinco minutos. Felizmente, era hora de ponta, e o próximo partia dentro de dez. Com todos aqueles melões, a perseguição revelava-se difícil para Alberto Freitas.

AF - Dê-me um bilhete para Kazan!
Homem da bilheteira - Falso ou verdadeiro?
AF - Quanto custa o falso?
HB - O dobro do verdadeiro, mas em moedas falsas.
AF - Aceita melões?
HB - Para comprar um bilhete falso? Só melões falsos.
AF - Quero um verdadeiro.
HB - Cinco melões, por favor.
O comboio partiu. Quinze minutos de caminhos-de-ferro separavam Alberto Freitas dos proscritos Igor e Jadranka. Era preciso trocar de comboio em Rink-Já-Vinte; talvez aí conseguisse apanhá-los.

The James Bond Theme, John Zorn, Naked City

Havia muitos polícias no comboio, talvez para prevenir ataques terroristas como o de há pouco. A paisagem era monótona: estepes, estepes, estepes. O comboio já tinha partido há 5 horas...

AF - Desculpe, mas já chegamos a Rink-Já-Vinte?
Polícia - Talvez sim, talvez não. Quanto é ganho em dizer?
AF - Mas, mas...
P - Pois, pensava que o pessoal trabalha à borla? Olhe que eu chamo a polícia!
AF - Mas o senhor não é polícia?
P - Talvez sim, talvez não. Quanto é ganho em dizer?
AF - Mas tem um uniforme de polícia!
P - Talvez sim, talvez não.
AF - Mas não me pode ajudar?
P - Talvez sim, talvez não. Desalentado Alfredo Freitas desistiu mesmo a tempo de ver passar a placa de Rink-Já-Vinte. E quando se virou, ...
P - Chegámos a Rink-Já-Vinte. Mostre-me o seu bilhete.
AF - Hein? Uhhm... Está aqui.
P - Este bilhete é falso! Vou multá-lo.
AF - Mas... Comprei-o com melões verdadeiros...
P - Em que bilheteira?
AF - Só havia uma aberta...
P - Aha! Essa bilheteira é falsa. As verdadeiras estão sempre fechadas.
AF - Mas... Mas...
P - Nas bilheteiras falsas, colocamos vendedores falsos. Não se pode acreditar neles, porque só às vezes é que falam verdade.
AF - Posso pagar a multa em melões?
P - A cotação do melão está baixa. Gosto mais de princesas.
AF - De momento não tenho nenhuma; talvez no regresso...
P - Quantos melões tem?
AF - Onze.
P - É à conta. E ao regresso, fico com a sua princesa. Como se chama ela?
AF - Jadranka.
P - Jadranka? De Patavina? Oh oh, conheço-a bem...

Best Girl In the USSR, Messer Fur Frau Muller, KNIFE FOR FRAU MULLER: Second Hand Dreams

Subitamente, uma comoção no comboio! Tinha acabado de ser invadido por um fura-picas furioso. No movimento maniaco tudo levava à frente, incluindo um traficante de cigarros que afanosamente escondia tabaco no intersticios dos bancos para apresentar um envelhecimento natural. O pica largou os melões e começou a corer em sentido inverso, empurrando Alberto Freitas que se viu subitamente debaixo de um banco na companhia de duas galinhas, três gatos, 1 cavalo, três jogadores de sueca com uma finlandesa cada, 4 tocadores de pífaro da Toscaia e um bluesman que tinha desistido de arrumar carros depois de ter sido atropelado por um traficante de cortiça ao serviço da EMEL. E o que ninguém sabia era que enquanto isto acontecia, o outro
comboio...

I'll Be Around , Howlin' Wolf, Blues Masters, Vol 4: Harmonica Classics

O jogador da frente, um velho com cara de lascívia enquanto afagava um ás de paus, virou-se para Alberto Freitas:

Jog 1 - Sabe jogar à sueca?
A.F. - Sei mas agora estou à procura da princesa Jadranka
Jog 2 - Jadranka? conhecemo-la bem, sabe tocada pífaro!
A.F. - viram a princesa?
Jog 2 - Porquê? Não prefere jogar à sueca? Posso emprestar-lhe uma
finlandesa, é a cara chapada da princesa Jadranka
A.F. - A princesa Jadranka? Onde é que está a princesa Jadranka?
Jog (em coro) - Só lhe dizemos se jogar à sueca!
A.F. - Antes tocar pífaro da Toscaia!

E nisto Alberto Freitas salta debaixo do banco para o comboio da frente, que estava o lado devido à greve das 15.42 dos maquinistas. Estes eram muito pontuais e assim a companhia já incluia as greves nos seus horários. Mas o que ninguém sabia é que quando Alberto Freitas aterrou no terceiro compartimento da quinta carruagem do comboio para Kazan foi que ...

rush, yoko kanno,COWBOY BEBOP O.S.T.1

Alberto Freitas tinha de se decidir rapidamente para que lado se virar. Assim atirou um melão ao ar e escolheu o lado com mais pevides. Começou por educadamente bater à porta do primeiro compartimento para surpreender três finlandesas a jogar à bisca com uma sueca.

A.F. - Desculpe, não viram a princesa Jadranka?
Sueca - A princesa Jadranka? oh, oh, conheço-a bem, passou à meia-hora por aqui com o Ditador. Ela tem
A.F. - pois, pois, e para que lado é que ela foi?

Nisto a Sueca piscou o olho a uma das finlandesas, a finlandesa catrapiscou um às de copas e Alberto Freitas perdeu um melão. Decidiu então retirar-se apressadamente do compartimento e foi mesmo a tempo de ver um vestido branco desaparecer ao fundo do corredor. Desatou a correr até ser parado por um senhor muito bem vestido que o repreendeu por andar a correr dentro do comboio. Alberto Freitas pediu muitas desculpas mas não sem antes ouvir "Para a próxima tenha mais cuidadinho, ouviu?" Mas então já era tarde, desembocou num compartimento de uma excursão escolar dos jovens gregos de Maratona. E o que ninguém sabia era que estes jovens...

music theme from the movie "Zorba, the greek"

Alberto Freitas foi apanhado pelos gregos que o obrigaram a dançar. Tal foi mesmo digno de se ver porque tinha de equilibrar os melões que lhe restavam de uma forma precária. Entretanto lá se conseguiu desenvencilhar dos jovens gregos e mal saiu para o corredor!!!! deu de caras com a princesa Jadranka abraçada pelo ditador. Os três olharam-se em silêncio durante alguns minutos. E então Alberto Freitas recebeu um convite que não estava à espera....

This can't be legal, from the movie "Down to earth" with Rita Hayworth

Mas o que ninguém esperava era que Jarbas, líder do M.R.C.T.T.P.J.K.F.A.A.A (três vezes mais um carolo de milho) e ex-mordomo do ditador e a esposa deste, tivessem escolhido a ponte sobre o rio Vojvodine para demonstrar o seu descontentamento com a política de subscrição de vales postais para o comércio da cortiça. E assim decidiram dinamitar a ponte, inspirados por um velho filme inglês dobrado em islandês e com legendas duplas em croata e árabe, exibido no festival anual de Niepropetrovsk.

Jarbas - Já colocaste as cargas?
Esposa do ditador - Sim, estão prontas. Posso tomar algo...?
Jarbas - Não. E já não preciso mais de si!

E foi assim que Jarbas atirou a esposa do ditador da ponte abaixo.

Esposa do ditador - Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

theme from "The bridge over the river Kway"

Enquanto a locomotiva se despenha para o abismo, os passageiros precipitam-se para os respectivos assentos, cada um em busca do seu balão salva-vidas privativo. Tudo se passou com civismo e sem o menor vestígio de pânico. Com um violento puxão no cordel, Alberto Freitas õe-se ao fresco no seu balão de ar quente. Nos céus de Vojvodina, observa a locomotiva apitar uma última vez e desvanecer no infinito. Outros balões de ar quente povoam os céus de Vojvodina, entre os quais o do ditador Igor Ivanovic e o da princesa Jadranka Augustinovic.

PASSAGEIRO 1 - Primeiro uma greve, agora isto!
PASSAGEIRO 2 - É uma situação insustentável. Perdi o meu jornal, no meio desta confusão. É uma falta de respeito pelo utente!
PASSAGEIRO 3 - Como se não bastasse, o vento sopra numa direcção tal que afasta os balões cerca de 5 graus do rumo para Kazan. Por este andar, nem amanhã lá chegamos.
PASSAGEIRO 1 - Ao menos avisavam, pá.
IGOR IVANOVIC - Maldição! O corticeiro de Leixões conseguiu escapar! Agora reparo! Ele está a perder altitude por causa do peso dos melões!

Seria fácil a Alberto Freitas desenvencilhar-se dos melões, mas não era uma solução elegante. E depois, já lhes tinha ganho um certo afecto. Circulava portanto num corredor aéreo uns metros abaixo do de Igor e Jadranka. Acima de todos, movia-se vagarosamente o zepellin de Jarbas, o mordomo de Igor, que observava todo o cenário a partir da vigia situada na parte de baixo do engenho.

JARBAS - Ele escapou. Tudo corre conforme o planeado. É preciso que sofra ainda mais antes de morrer. Está na hora de lançar a chuva de alfinetes!

Jarbas puxa a alavanca que liberta milhares de pequenos alfinetes nos céus de Vojvodina. O efeito é devastador: mais de metade dos balões rebentam e despenham-se no solo montanhoso, trazendo consigo o respectivo passageiro. Igor e Jadranka estão entre as vítimas, e iniciam já a descida fatal. Alberto Freitas aguarda pacientemente que um alfinete o atinja para poder seguir no seu encalço, mas por um incrível acaso todos os pequenos projécteis pontiagudos lhe passam ao lado. O seu balão é agora o único nos céus de Vojvodina.

JARBAS - Tu aí! Porque não cais?
ALBERTO FREITAS - Não tenho culpa. Todos os alfinetes me passaram ao lado.
JARBAS - Já que é assim salta para o meu zepellin. Sempre é mais confortável.
ALBERTO FREITAS - Está bem.
JARBAS - O meu nome é Jarbas. Sou o mordomo de Igor Ivanovic. Ele julgava-me morto, mas troquei as suas balas de metal por umas de cortiça e...
ALBERTO FREITAS - Está bem, está bem. Então conhecias esse maldito ditador?
JARBAS - Conheço! Ele não morreu ainda. Mandei instalar uma cama elástica gigante que cobre todas as montanhas de Vojvodina para que ele pudesse escapar e ter uma morte ainda mais dolorosa...
ALBERTO FREITAS - Mais dolorosa? Como?
JARBAS - Está tudo planeado! Este meu fascínio pelas mortes dolorosas já vem do passado, quando...
ALBERTO FREITAS - Deixe lá isso! O que vai acontecer quando ele aterrar na cama elástica?
JARBAS - Ah Ah Ah!
ALBERTO FREITAS - ... E à Princesa Jadranka?
JARBAS - Ela está por aí? Conheço-a bem! Tem uns bonitos seios, não acha?...
Bom, na verdade são de silicone, eu mesmo o implantei...
ALBERTO FREITAS - Páre com isso! Concentre-se! O que vai acontecer ao
ditador Igor e à Princesa Jadranka?
JARBAS - ... Nasceu em Patavina a 16 de Março de 1986, num belo dia de Sol como este que está hoje, embora sem a chuva de alfinetes. O alfinete foi inventado há muito tempo atrás quando os primeiros artesãos travaram conhecimento com os metalúrgicos por alturas do Neolítico. O Neolítico é um período que se segue ao Paleolítico... Os seios da Princesa Jadranka têm a mesma forma da típica pêra de Patavina...
ALBERTO FREITAS - Basta! Vou voltar para o meu balão. Estou farto de si!

Vamos Fugir, Mão Morta,Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável

Alberto Freitas regressou ao seu balão empunhando um alfinete-de-dama que subrepticiamente roubara do zepellin do mordomo Jarbas. O que fazia um alfinete-de-dama no zepellin do mordomo Jarbas é que ninguém sabia. Espetado pela fina ponta metálica, o balão de Alberto Freitas jorrou ar quente até ao último suspiro e foi a pique na direcção das montanhas de Vojvodina forradas a cama elástica, como um balão esvaziado, que no fundo é o que era. Ficou a oscilar na cama elástica durante uns bons 10 minutos até a amplitude do salto desvanecer para obedecer à segunda lei da Termodinâmica. Quando estabilizou viu que outros passageiros aturdidos estavam plantados à sua volta. Mas ele, Alberto Freitas, não tinha tempo a perder!

ALBERTO FREITAS - Passageiro amigo! Na sua queda ter-se-á porventura cruzado com um sanguinário ditador e uma bela princesa?
PASSAGEIRO - Refere-se a Igor e Jadranka? Mal estabilizaram, Igor deu três gargalhadas sonoras e dirigiu-se para o armazém de cortiça. Jadranka foi atrás, depois de me ver e cumprimentar...
ALBERTO FREITAS - Armazém de cortiça? Aqui?
PASSAGEIRO - Por acaso não tem umas aparas a mais? Bem sei que não é legal, mas...
ALBERTO FREITAS - Aparas?
PASSAGEIRO - Sim! De cortiça! Mas em que país é que você vive? Bem, como dizia, Jadranka cumprimentou-me e então eu aproveitei para lhe devolver as cuecas que ela tinha esquecido no outro dia e que desde então eu trazia todos os dias...
ALBERTO FREITAS - (zangado) Onde fica esse armazém?
PASSAGEIRO - É já ali. Esquerda, direita, direita, frente, esquerda, direita, frente, frente, esquerda, esquerda.

A ira de Alberto Freitas era maior que nunca, agora que sabia haver naquela zona remota uma forte concorrência à sua actividade de corticeiro. Como se não bastasse, era cada vez mais forte a sua suspeita de que Jadranka, a Princesa de Patavina, era um pouco menos casta do que lhe tinha feito crer. Após duas viragens consecutivas à esquerda, um celeiro todo construído em cortiça barrou-lhe o caminho. Tinha chegado enfim ao ringue decisivo do seu combate. Iria a Fortuna aclama-lo? E ao fim de quantos assaltos?

The Great Big Saw Came Nearer And Nearer, Spike Jones, Not your Standard Spike Jones Collection, Disc

Fagulhas de cortiça baloiçavam no ar junto à entrada da serração. Alberto Freitas encheu o peito de coragem e entrou. As máquinas estavam em movimento, despedaçando rolhas de cortiça e enviando as aparas para o reciclador.

AF - Igor Ivanovic, aparece! Eu sei que estás aí!
II - Não estou!
AF - Estás!
II - Não estou!
AF - Estás!
II - Não estou!
AF - Não estás!
II - Estás! Estás!

Foi então que Igor Ivanovic se levantou e excalmou:

- Patavina será minha!

Cego pela raiva e surdo pelo barulho da máquina de cortar rolhas, Alberto Freitas precipitou-se na direcção do ditador Igor Ivanovic e lançaram-se numa luta feroz e condenável do ponto de vista do fair play. A princesa Jadranka assistia com serenidade enquanto fazia contas à vida. Não se estava mal na indústria da cortiça...

AF - Vou desferir-te o golpe final!
II - Patavina não será minha! Mas vocês os dois hão-de ser muito infelizes!
AF - Isso é o que vamos ver!

Com um golpe seco, empurrou o sanguinário ditador Igor Ivanovic para uma tina de cortiça onde foi despedaçado pela lâmina afiada da máquina, feito em pequenas rolhas, embalado, selado e enviado para a plantação de vinhos JP, onde serviu para fechar todas as garrafas da colheita special edition vintage cujo gosto, haveriam de dizer os especialistas, apresentava um toque seco e aveludado, o que ninguém conseguiu explicar...

Friday, October 15, 2004

A família Zbdas Catrapás

[transmitido na RiIST em 14.10.2004. Download disponível AQUI]

sunday morning, Velvet Underground e Nico

Domingo de manhã do Outono de 2020. A Avó Zbdas Catrapás ouve tranquilamente a música da sua juventude no sossego do quarto. Lá fora, as folhas caem ao ritmo do leque cá dentro. A Avó Zbdas Catrapás está nostálgica...

O sossego é interrompido por um tumulto no jardim. Zbdas Catrapás Neto está a ter mais um acesso de sonicofagia das velharias provocado pela ausência dos comprimidos dessa manhã. Desta vez o efeito é trágico: acaba de deglutir a enorme grafonola que envelhecia na arrecadação anos a fio. O apetite pelas coisas velhas que produzem som é insaciável... A droga dos anos 20 do séc XXI. Mas subitamente algo chama a atenção de Zbdas Catrapás Neto forçando-o a deter por momentos esse exercício sociológico... Ao lado da grafonola, encostada à parede, está uma velha pá... Que lhe dá umas ideias... Uma pá pode servir para muitas coisas, e algumas delas têm pouco a ver com... cavar...

never it your grandmother with a shovel, Spike Jones

Zbdas Catrapás Neto e a sua sonicofagia das velharias. Entra no quarto da Avó Catrapás Neto, munido da pá. Está possuído por uma força que não consegue controlar. Fica ali, especado, confrontando o silêncio da idosa adversária. A Avó Catrapás Neto sabe que pisou uma mina, e que falar, rosnar, assobiar ou vociferar é o mesmo que levantar o pé e deixar o mecanismo explodir. Zbdas Catrapás Neto aguarda o som, à cata da nota musical que o fará erguer a pá. Uma abelha que o seguia desde o jardim vem quebrar este equilíbrio: a pá sobe, depois desce, e finalmente atinge a Avó Catrapás Neto em cheio no cocoruto, que vê estrelas pois entretanto caiu a noite.

the ideal civilization, Trans Am

Enquanto a Avó Catrapás Neto jaz inanimada no quarto, Zbdas Catrapás Neto tem um rasgo de lucidez, lembra-se da campanha contra a violência sobre os idosos que aprendera na escola primária, enche-se de remorsos e foge para a Alemanha, com a PSP, GNR, PJ e o Inspector Circunspecto no seu encalço.

Refugia-se num bar de má fama, onde a clientela é algo... homossexual, o que muito parece agradar ao Inspector Circunspecto, que o persegue...

Dadada - Trio

Farto de tanta perseguição e motivado pelas investidas ameaçadoras de 20 homens vestidos de celofane, entre sorrisos e promessas de inícios de belas amizades, Zbdas Catrapás Neto foge através de um sistema de túneis ligados à ventilação. E é escondido num respiradouro no
tecto que ouve pela primeira vez, como ondas sonoras contornando o fumo espesso, a voz de Lili Marlene, por quem se apaixona imediatamente.

Lili Marlene, Marlene Dietrich


Mas a circunstâncias obrigam Zbdas Catrapás Neto a prosseguir a sua fuga pelos túneis de ventilação, pois já o Inspector Circunspecto se esgueira pelos mesmos túneis como uma carraça à procura de hospedeiro. Da ventilação à canalização, da canalização aos esgotos e dos esgotos à calha, já Zbdas Catrapás Neto se esgueira até ao bar vizinho, que está vazio à excepção de
um taberneiro de ar ranzinza.
ZCN - Bom dia.
Tom Waits - Eu conheço-o...
ZCN - Também acho que o conheço.
TW - Já sei! És o [...], que lavava o convés no navio para Singapura.
ZCN - Não, não...
TW - Já sei! És o condutor negro, que bebia sangue como se fosse vinho.
ZCN - Não, não, também não...
TW - Já sei! És o [...]
[...]
TW - Já sei! És o Zbdas Catrapás Neto e andas a fugir ao Inspector
Circunspecto.
ZCN - Para a DDR?
TW - É já ali, por aquela porta escondida, depois do muro. Rápido!

What's he building in there?, Tom Waits


Fazia escassos minutos que Zbdas Catrapas Neto se escapara para a DDR, quando o taberneiro ranzinza recebe a segunda visita da tarde.
IC - Bom dia.
TW - Eu conheço-o... Já sei!...
IC - (interrompendo-o) Sou o Inspector Circunspecto e persigo Zbdas Catrapas
Neto.
TW - Para trás, Inspector Circunspecto! Zbdas Catrapas Neto é meu amigo. Não
o apanharás!
IC - Ninguém escapa aos tentáculos da Lei dos quais eu sou a mais sugadora
de todas as ventosas. Sim, apanhá-lo-ei!
TW - Não vás tão depressa... Fica mais um pouco... Bebe comigo esta
aguardente de ameixa que trouxe da Checoslováquia.
(barulho de copos)
IC - Quando eu era pequeno... não queria ser inspector...

Tmovodry Svet, V+W (Osvobozené divadlo)

Livre dos tentáculos do Inspector Circunspecto, Zbdas Catrapas Neto atravessara a pé a Polónia e a Bielorússia e estava agora na Ucrânia. Caminhava à beira da estrada em direcção a Dniepropetrovsk via Chornobyl, Kiev, Kaniv e Cherkasy, sempre paralelo ao rio Dniepr.
ZCN - Desculpe... Falta muito para chegar a Dniepropetrovsk?
Pedestre ucraniano - [...]
Foi ao aproximar-se de uma pequena povoação nos arredores de Dniepropetrovsk
que começou a ouvir um ruído crescente... Dominado por novo acesso de
sonicofagia das velharias, Zbdas Catrapas Neto foi ver o que era... Até que
chegou a um recinto onde uma multidão de punks assistia a um concerto...
peculiar.

Anarchy in the U.K. - Ukrainians


Qual metadona bem doseada, e graças a um fenómeno terapêutico ainda desconhecido, o concerto violento a que Zbdas Catrapas Neto assistira curou-o definitivamente da maleita que o afligia desde criança - nunca mais voltaria a ter acessos de sonorofagia das velharias. Amnistiado pela sociedade, telefonou para a Avó Zbdas Catrapas, também ela reestabelecida do acidente com a pá, e que se veio reunir com o neto na nova moradia deste último em Dniepropetrovsk. Os dois eram felizes em Dniepropetrovsk, tendo inclusive nos últimos meses vindo a desenvolver uma colecção conjunta de vinis, grafonolas, réguas de cálculo e outras antiguidades. À noite costumavam ir à ópera.

battle in the snow, Alexander Nevski

Quando tudo parecia compor-se, o desemprego chegou a Dniepropetrovsk. Zbdas Catrapas Neto e a sua avó viram-se forçados a partir para a Polónia, onde pouco depois a crise os alcançou. Aí o caminho das suas vidas bifurcou-se: Zbdas Catrapas Neto naturalizou-se polaco e fez-se Papa; e a Avó Zbdas Catrapas arranjou emprego numa sociedade secreta simpática que a levou a emigrar para a Argentina. Só dias depois em Buenos Aires percebeu o que realmente lhe sucedera: envolvera-se irremediavelmente nas malhas apertadas da prostituição gerontófila, das quais não havia saída, mas apenas entrada.

trio esquina

Tuesday, September 21, 2004

dinâmica

crzzzz... crzzzz... crzzzz...

estática

crzzzz....